
quando o processo criativo em escrita e imagem vai para o livro de ficção
entrevista com a escritora e jornalista Rafaela Tavares Kawasaki
Conte a história do projeto, a partir de como surgiu a ideia até a inscrição no Rumos?
Comecei a escrita da novela em 2019 após viver um momento próximo da narradora: parar a vida para se concentrar no cuidado de outra pessoa. Aqueles dias tiveram um impacto corporal destoante, que me deslocou do cotidiano de até então, como se eu entrasse num estado entre o sonho e a vigília. Comecei a escrever diários, pois estava ali para cuidar de uma pessoa da qual era responsável – um familiar –, mas onde havia muita história passada que desembocou numa ausência de intimidade. No momento do cuidado e da obrigação, toda a história veio à tona e a realidade se impôs. Decidi que escreveria uma novela sobre o cuidado em situações de vulnerabilidades física, emocional e social sem que eu me voltasse totalmente à palavra “família”, quis encontrar na escrita e em outras linguagens, os dias de atenção e de obrigação, de memória e de trauma, de delírio e de realidade, de saúde e de doença, cavando nos meandros destes nomes maneiras de escrever o que acontece entre eles em situações como essa. Ainda, quando encontrei a chamada do Rumos, focada em processos de criação, expandi a pesquisa deste trabalho para outras linguagens, vendo a memória do vivido enquanto um arquivo de ficção não só para a escrita, mas para a fotografia, para a colagem e para os vídeos-ensaios. Após a aprovação no edital, retomei os escritos iniciados em 2019 e percebi que a voz daquele texto não dialogava com a narrativa que eu gostaria de escrever, com um pouco mais de crueza, por isso, mantive a ideia inicial, suas personagens, mas comecei a escrever uma segunda versão. O projeto “Foi um jeito de derreter” tem como uma das fases a escrita da novela, mas me possibilitou pensar a história por outras expressões artísticas, que vou levar para a publicação.
Como foi seu processo de criação envolvendo colagem, pesquisa e escrita?
“Foi um jeito de derreter” é um projeto transdisciplinar de literatura; entre a escrita e a imagem do vídeo, da fotografia e da colagem, a história acontece. O contexto das diferentes linguagens me possibilitou gravar as imagens que não queria perder de vista, assim como criar novas a partir da colagem. Gravei e registrei as imagens que encontrei no processo de pesquisa e as modifiquei através do recorte, da colagem e da edição como uma maneira de investigar os espaços, as personagens e os lugares da história, como também colocá-los em outros contextos pela possibilidade de torcer, revê-los por outra perspectiva, ou seja, um gesto de ficção com imagens. Esse gesto também estava presente quando escolhi manusear materiais que não tinha intimidade, tentando recuperar a ausência de intimidade das personagens entre a colagem com giz, papelão, papel manteiga e outros recortes. Entre memória e ficcionalização, a narrativa foi acontecendo, não através de uma inspiração possuidora, mas de algo construído em fragmentos, notas, desenhos, escrita em cadernos e seleção. Por isso, o processo de criação também é caminho e narrativa neste livro.
As imagens só existiram porque me movimentei por Pinhais, cidade onde parte principal da novela acontece, e pelo bairro Uberaba, em Curitiba, local onde as memórias e digressões da narradora-personagem se voltam. É uma tentativa de ver outro Sul na escrita e imagética literária que corra pelos contornos das fronteiras imaginadas e materializadas através de políticas de marginalização. Quero levar o bairro onde eu cresci para a literatura.
Quais você considera os temas centrais da novela?
Acredito que o tema central da novela seja o cuidado em situações de vulnerabilidade, seja ela física, emocional e social, mas o cuidado como um movimento em relação; em relação com o corpo de quem cuida e de quem é cuidado, em relação com a obrigação, em relação com o impacto do passado na vida presente, em relação com o espaço que se vive e quais territorialidades são essas e em relação com a história. O Artigo 133, do Decreto-lei número 2.848, de 1940, a lei de Abandono de incapaz, impede que um responsável se afaste de um familiar ou pessoa sob o cuidado e guarda em situações de vulnerabilidade. No entanto, esse cuidado – isto é, um trabalho muitas vezes não remunerado e feito por mulheres em sua maioria – se dá em condições emocionais e sociais nem sempre consideradas, como a exigência de se estar diante de uma pessoa que não se tem intimidade ou que pode ter cometido alguma violência no passado. O acúmulo da experiência de uma relação está incrustado nessa ação do cuidado.
Outros temas importantes nesta publicação são o processo criativo e as outras formas de contar uma história, dessa forma, as imagens e colagens do livro não estão ali para ilustrar, mas para narrar a ficção de “Foi um jeito de derreter”, para misturar os momentos de pesquisa, de escrita e de impressão, borrar os tempos e o encontro entre memória, registro e invenção. Uma possibilidade de novos vislumbres na minha escrita.
Resuma a trama com uma sinopse.
Sem ver Marta há alguns anos, a narradora de “Foi um jeito de derreter” recebe a notícia de que ela está mal de saúde e que é urgente ir ao seu auxílio. Encontra a casa de Marta em situação de abandono e Marta em condições de vulnerabilidade física, psicológica e social. Entende que Marta está doente, mas não sabe ao certo do que e, diante do impacto do encontro, a obrigação de lidar com os dias de cuidado e com o assombro do passado da sua relação com Marta vem à tona.
A criação da novela tem relação com seus trabalhos anteriores como escritora e artista?
Sim e não, acredito que os temas da família, da memória e a perspectiva de uma Curitiba das margens já estavam presentes no meu primeiro livro, Carne e Colapso, e em outros textos publicados, em especial poesias. No entanto, não havia escrito esta história em nenhum outro texto, “Foi um jeito de derreter” é nova para mim.
E como historiadora?
A escritora e a historiadora caminham juntas com seus olhares e mãos de polvo, pegando os rastros, os vestígios e ruídos do caminho e fazendo uma nova coisa a partir da fabulação, dois movimentos de escrita em contato com arquivos – vivos, inanimados, documentados, sonhados e imaginados. Quero que “Foi um jeito de derreter” seja um ruído dessa caminhada.
Como você descreveria o estilo e linguagem da narrativa?
É uma prosa. Uma narrativa que se abre para a prosa poética em alguns momentos, assim como brinca com a polifonia, não somente entre narradora e personagens, mas entre as linguagens presentes no livro e o jogo com diferentes inscrições e descrições de documentos e arquivos no texto.